Mesa compartilhada
Histórias de padaria
Florianópolis, maio, 2025
Preciso caminhar dez minutos para chegar à padaria mais próxima do apartamento. São sete da manhã quando inicio o percurso e conto as peças de roupa que estou vestindo. Oito. Com uma garoa dessas, talvez não seja o suficiente.
Um homem de braços à mostra e chinelos nos pés pede dinheiro no semáforo. Só a garoa não desvia dele.
A padaria tem mesas compridas, compartilhadas por quem se conhece e por quem nunca se viu. Não sou da cidade, ninguém ali é familiar. Me acomodo na única cadeira livre, ao lado de um senhor que parece muito à vontade.
As funcionárias o chamam pelo nome:
O de sempre, Anselmo?
Hoje não. Ao invés do pingado, vou querer cappuccino.
O que deu no senhor pra mudar o pedido?
Esse tempinho chuvoso me dá vontade de tomar cappuccino, lembro da falecida mãe.
Tá certo. Vou providenciar.
Não demora, a garçonete traz pão na chapa com queijo e cappuccino. O homem come sem pressa, às vezes olha para a janela que permite ver a rua. Ele divide o pão em pedaços e saboreia de pouco em pouco, naquele café-encontro com a falecida mãe.
Eu não deveria insistir nas condições climáticas, em fenômenos banais como a chuva. Não pega bem colocar isso no texto. Mas não ligo, porque o quadro que se pinta é saudade, janela escancarada pelo Anselmo. Com ou sem chuva, uma saudade nunca é banal.
Cuiabá, setembro, 2025
Dez tubinhos de sangue depois, entro na padaria para sair do jejum. A rotina do pré-natal inclui idas mensais ao laboratório que sempre terminam em ovos mexidos, café e frases aleatórias num bloco de anotações. Não parei de tomar café na gestação.
Demoro quinze minutos para conseguir uma mesa. Durante a espera, pergunto ao ChatGPT a origem da palavra jejum, do latim jejunus, significa vazio, sem nada, seco.
Uma mulher se aproxima logo que me sento. “Posso dividir a mesa contigo?”, ela quer saber. Não quero dividir, mas o lugar está cheio. Respondo um “sim” forçado.
[deixo um espaço no caderno de anotações para descrever essa mulher, desenhá-la para quem lê. Desisto. Não pretendo me apegar a descrições]
Aliás, o que pretendo? Importa dizer que ela está à espera de alguém, do Rui, o homem para quem ligou duas vezes na minha frente.
Cadê você? Já cheguei.
Vem logo, não tenho muito tempo.
Beijo, tchau.
A mulher pede pães de queijo e suco de laranja, rola de forma ritmada o feed de alguma rede social. Ri para si mesma, uma risada estranha, caricata, dessas que parecem choro. [Cessam os detalhes sobre a personagem] Então, a vejo acenar para a porta, é o Rui quem chega e se junta a nós. Agora são dois desconhecidos comigo, no espaço que ocupei antes deles para sair do jejum.
Eles me ignoram, conversam como se não houvesse outra pessoa ali. Fazem comentários maldosos sobre gente que não conheço, mas poderia conhecer, agem sem pudor. As mesas ao redor começam a esvaziar, espero pelo momento em que os inconvenientes pedirão licença e me deixarão em paz, o que eles não fazem. Seguem a conversa, sigo ignorada.
Me recuso a abandonar a minha mesa. Há um embate em curso, o cabo de guerra nem tão imaginário assim. Mas chega a hora de soltar a corda, preciso ir ao próximo compromisso. Antes, no balcão, peço vários quitutes para viagem.
Marca na mesa nove, por favor.
Deixo a conta para eles. Vou embora vingada.






a vingança é doce!
Fico impressionada com a facilidade em que nos tornamos invisíveis em algumas situações, e me pergunto sempre como faz pra isso acontecer quando eu quero, não à revelia.