Medo
De cara com ele
Saímos de Porto Alegre com chuva, o voo previsto para seis da manhã atrasou. No percurso até São Paulo experimentamos a tensão das áreas de instabilidade. Basta o aviso de atar cintos para que o corpo endureça. Me acalmo repetindo em pensamento: Turbulência não derruba avião.
Ficamos a maior parte do voo presos aos cintos, o que exige (pelo menos de mim) imenso trabalho de concentração. Alguns passageiros são mais tranquilos: do meu lado, uma moça dorme pesado, nem se mexe; roncos vêm da fileira de trás, o responsável por eles dá joelhadas na minha poltrona quando tenta se esticar. Invejo tamanha tranquilidade.
O avião balança mais forte, perde alguns metros em altitude. Os passageiros dorminhocos continuam do mesmo jeito. Olho ao redor e me deparo com ela, apavorada, o medo estampado em sua cara. Tenho a impressão de que vai se levantar, disparar pelo corredor, pedir ajuda aos comissários. O medo dela chega a mim, injeta nas veias um combo de sentimentos esquisitos, desesperadores. Quem sente vontade de levantar e sair correndo sou eu.
Volto a encarar os que dormem, os que leem seus livros, os que assistem séries e filmes nessas condições adversas. Porém, a calma deles não me impacta da mesma forma, não tem o efeito sonífero e tranquilizante que eu gostaria que tivesse. O medo é soberano, fala mais alto que os demais, agarra a gente como se não fosse soltar.
A mulher sabe que atingiu alvo propício. Tenho raiva dela, do pânico que pula de seus olhos, se aconchega em meu colo e sussurra: “Não se dá conta? Este avião vai cair! Vamos todos morrer!” Vamos mesmo. Finjo costume, uso o celular para fotografar as nuvens.
O medo não se dissipa quando o avião pousa em Guarulhos. Permanece comigo no voo seguinte, no caminho para casa, nas horas inoportunas em que o rosto apavorado me visita. Com o passar dos dias, ele se afasta, vira um borrão, trégua até a próxima viagem. O único avião que me preocupa, por enquanto, é a colher usada para alimentar meu filho.
Para ouvir - Cantarolei esta música algumas vezes enquanto o texto acima nascia. Sugiro que escutem uma vez, duas, três…



O medo comia tanto meu tempo em viagem aérea que passei a tomar medicação pra dormir assim que afivelasse o cinto, "tome tb seu lexotan" (nem era). Era terrível. Agora, durmo antes que o avião decole, mesmo sem remédio, o que já me gerou angústia ao acordar: o voo estava atrasado o tempo que durava a viagem. Como avisar quem ia me buscar? Só em pensamento mesmo kkkkkk adorei (e odiei) a pessoa que te fez sentir a sensaçao mais paralisante de todas, já que te deu material pra gente te ler mais.