Falacrofobia
Soube o que é eflúvio telógeno numa consulta de pré-natal. “Acontece a partir dos três meses pós-parto, os cabelos da mãe começam a cair”, a médica explicou. Deixei o consultório com mais uma preocupação, além da lista de vitaminas que, embora não evitem a queda, prometem amenizar o processo. Manipular substâncias na tentativa de manipular o corpo. Custa caro e não tem garantia, vale a pena investir? Vale sim, ainda que seja para perder cabelo e dinheiro.
Não foram poucas as vezes em que me alertaram para o risco de perder os cabelos. Comidas, bebidas, remédios, estresse, tratamentos diversos a serem evitados. Cresci com a certeza: não há nada pior do que a cabeça lisa. O médico destacou esse risco antes da cirurgia de retirada da tireoide. Por precaução, receitou vitaminas, sempre elas. O hipotireoidismo pós-cirúrgico, no meu caso, não teve grandes impactos. Mas 2021 foi marcante. O eflúvio se deu dois meses depois da primeira infecção por covid-19. Vivi dias de tensão, potencializada na hora do banho, quando observava a infinidade de fios escorrer pelo ralo. Ali estive mais perto da falacrofobia, o pânico de ficar careca. Ao menos, eu continuava viva.
Deito na maca para fazer o último exame antes do bebê nascer, 37 semanas de gestação. “O menino tem cabelos”, ressalta o médico. Na sequência, emenda explicações sobre calvície e hereditariedade, para concluir que ser careca é o futuro do meu filho. “Não tem jeito. Se o avô materno é calvo, você sabe o que precisa ser feito. Começa a guardar dinheiro para o implante capilar”. Não consigo rir da piada e nem sinto raiva daquele homem. Restam poucos fios na cabeça dele, o que torna evidente o motivo da preocupação e do conselho. Não farei poupança para a finalidade indicada, mas saio do consultório com novas palavras anotadas no caderno: calvo, calvície, cabelo, careca, capilar.
Eflúvio tem origem no latim effluvium, significa escorrer ou emanar. Dessa mesma palavra derivam os termos afluente e efluente. É interessante como uma letra muda tudo. Afluentes são corpos d’água menores que alimentam corpos maiores. O rio pequenino, veia fina e frágil, se junta ao rio principal, movimentando sistemas de vida. Os efluentes, por sua vez, são resíduos de atividades do homem (domésticas, industriais, agrícolas etc.) descartados no meio ambiente. Basta mudar uma letra para sair da vida e começar a morte.
Meu pai já foi jovem e teve cabelos. Uma vasta cabeleira. Me surpreendo diante das fotografias em que ele aparece com o rosto emoldurado pela juba cumprida. Papai é calvo desde que nos conhecemos e sempre preferiu se colocar no time dos que brincam com a situação. Na infância, eu adorava acompanhá-lo ao salão onde cortava o pouco cabelo e aparava a barba. Havia pilhas de revistas no lugar, a maioria delas trazia fotos e entrevistas de famosos; era divertido inventar histórias e diálogos com aquelas pessoas que víamos na televisão. Numa das ocasiões, o cabeleireiro – conhecido como Nogueira – ofereceu ao meu pai o produto milagroso, uma espécie de óleo para massagear o couro cabeludo. Esperei pela negativa, seguida do comentário sagaz que deixaria o Nogueira sem graça, mas meu pai quis saber o preço e comprou o produto. A promessa de cabelos novos e fortes não se confirmou ao longo das semanas de uso. Naquele dia eu enxerguei, refletida no espelho do salão, outra imagem daquele homem que eu pensava conhecer tão bem.
Junho de 2024. Calço tênis para iniciar o reconhecimento. Quando mudo para um lugar, gosto de caminhar pela vizinhança, observar as casas, cumprimentar as pessoas, saber dos estabelecimentos nos arredores. Nestas ruas com nomes de coronéis, os moradores mais antigos ainda formam rodas nas calçadas e colocam a conversa em dia.
Subo a rua Coronel Neto em direção a Senador Metello; cruzo a São Joaquim e viro na Coronel Benedito Leite. A ideia é chegar ao Sesc Arsenal, passar a tarde por lá. A certa altura da Benedito Leite, avisto a cruz. Não sabia que havia igreja nas proximidades, acho curioso. Quanto mais caminho, mais tenho certeza: a cruz preta na calçada, quase na esquina com a Comandante Costa.
Paro em frente a ela, não tem igreja. No imóvel de fachada branca, a placa anuncia: Reposição capilar, um número de telefone e o nome Isabel. Para mim, é novidade cruz em frente a salão de cabelo; talvez a dona seja muito religiosa; e se o tratamento contra calvície incluir orações fervorosas?
Durante dois dias, ligo para o número da placa, sem sucesso. Na rua Benedito Leite, um vizinho informa o novo contato da Isabel, que atende na primeira tentativa. “Preciso de um horário, meus cabelos estão quebradiços”. Nos encontramos na mesma semana, na casa dela, onde descubro que está aposentada, nem trabalha mais com reposição capilar. “Imagino a razão da visita e acho importante. Algumas coisas não podem morrer”, diz a mulher, enquanto eu, caderno e caneta a postos, me preparo para a magia: ouvir as histórias de alguém.
Desde 2024, coleciono histórias relacionadas à cruz preta da rua Benedito Leite, em Cuiabá (MT). Desvendei alguns mistérios, outros não (volto a falar desse assunto em breve). A maior motivação não é a realidade, as dúvidas respondidas, mas o que crio a partir das observações e escutas. As palavras e histórias que guardo comigo são alimento e valem o esforço, mesmo quando não sei (ainda) o que fazer com isso.





Essa cruz sempre me impressionou! Ansiosa para ler!
Uma delícia de texto, cacheando as ideias como os seus cabelos. Viva as obsessões e os caderninhos